Em um universo não muito distante, cultivar segredos será 'ter algo a
esconder', 'compartilhar' será um sinal de altruísmo
16 de outubro de 2013 | 2h 10
JOE NOCERA, THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo
No seu excelente e profético livro 1984, George Orwell expôs sua visão
do que seria o totalitarismo levado ao extremo. O governo - na forma do Big
Brother - vê tudo e sabe tudo. O Partido reescreve o passado e controla o
presente. Dissidentes surgem na TV de modo que podem ser denunciados pela
população. E o Ministério da Verdade difunde três slogans do Partido:
"Guerra é paz", "Liberdade é escravidão" e "Ignorância
é força".
O novo romance de Dave Eggers, The Circle (O Círculo) também traz três
slogans orwellianos curtos e embora eu não saiba se ele escreveu O Círculo
tendo 1984 como modelo, acho que seu livro pode também se tornar profético.
O tema de Eggers é como seria a perda de privacidade quando levada ao
extremo. Seu foco não é o governo, mas as empresas de tecnologia que invadem
nossa vida privada diariamente. O Círculo a que se refere é uma companhia do
Vale do Silício, um híbrido malévolo de Google, Twitter e Facebook, cujas
culturas - as dádivas, a dependência do trabalho, as amizades falsas - Eggers
capta com um apenas leve exagero.
O Círculo tem enorme poder porque tornou-se a principal porta para a
internet. Graças ao seu quase monopólio, consegue reunir volumes de dados sobre
qualquer pessoa que usa seus serviços - e de muitas que não usam - dados que
lhe permitem rastrear a vida de qualquer um em minutos. Isso começou com a
instalação de pequenas câmeras ocultas em diversos lugares - para reduzir o
crime, seus líderes insistem.
O Círculo pretende colocar chips em crianças para evitar sequestros.
Insiste para os governos serem transparentes, o que significa que os
legisladores devem usar uma minúscula câmera que permita ao mundo acompanhar
seus movimentos. Afinal, os parlamentares que se recusam a ser mantidos sob
suspeita devem estar ocultando alguma coisa.
Naturalmente, ninguém que trabalha para O Círculo acha que o que está
fazendo é nefasto. Pelo contrário, são visionários cujo único objetivo é
benigno: tornar o mundo um lugar melhor.
"Estamos no princípio do Segundo Iluminismo", diz um dos fundadores
do Círculo num discurso para funcionários. O Círculo acredita que, se conseguir
eliminar o segredo, as pessoas serão obrigadas a se tornarem seres melhores o
tempo todo.
Naturalmente, o Círculo encontrou múltiplas maneiras para transformar os
dados coletados em dinheiro. As desvantagens da perda de privacidade são para
os executivos "insignificantes".
É essa a visão do futuro distante? Naturalmente é - embora não mais do
que 1984. O Círculo imagina aonde poderemos chegar se não começarmos a prestar
atenção aos fatos. Com efeito, o que surpreende é o quão longe já seguimos
nesse caminho.
Graças a Edward Snowden, sabemos que a Agência Nacional de Segurança
(NSA) tem capacidade para ler nossos e-mails e ouvir nossos telefonemas. Google
nos exibe anúncios com base nas palavras que usamos e em nossas contas do
Gmail. Na semana passada, o Facebook, que tem, no conceito orwelliano, um
diretor executivo de privacidade - eliminou uma ferramenta de confidencialidade
para que qualquer usuário da rede social possa buscar qualquer outro usuário.
No dia seguinte, Google anunciou um plano que lhe permitirá utilizar palavras e
imagens dos usuários em anúncios de produtos que eles apreciam - informações
que Google conhece porque, bem, Google sabe tudo.
Embora não estejamos ainda no território esboçado por Egger, estamos
chegando perto. Não tenho conta nem no Facebook e nem no Twitter, mas de vez em
quando recebo um e-mail de um ou outro dizendo que determinada pessoa aguarda
que eu me junte a ela na mídia social. E com frequência ele seleciona como meus
"amigos" potenciais pessoas das quais jamais fui colega, mas posso
ter me encontrado rapidamente em algum momento. Acho repugnante o fato de as
companhias saberem que eu conheço essas pessoas.
"Se você tem alguma coisa que não quer que alguém saiba",
disse certa vez Eric Schmidt, ex-diretor executivo da Google, "talvez nem
devesse tê-la em primeiro lugar". Esse é o raciocínio que poderá um dia
nos custar o derradeiro fragmento de privacidade.
No caso de estar se perguntando, eis
os três slogans de O Círculo: "Compartilhar é se preocupar com o
outro", "Segredos são mentiras" e "Privacidade é
roubo". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
É JORNALISTA
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